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A Modernidade Dando Voz aos Sofistas



O fenômeno da sofística não é recente, data de alguns séculos antes de Cristo (500-400 a. C. apx.), para ser mais exata. Os sofistas, inicialmente considerados sábios e posteriormente rechaçados, eram os quais Aristóteles considerava capciosos e segundo o qual eram o pior tipo de argumentador, posto que, além de não estarem preocupados com a superior finalidade de um argumento – encontrar a Verdade – valiam-se de tal para chafurdarem-se em vaidade e contaminarem a formação linear dos espíritos mais sugestivos, apregoando argumentos vazios e utilizando-se de semântica prolixa com ares de ornamento ao seu bel prazer, embrulhavam-se em imagem de verdade; e, como maçãs podres pintadas de açúcar, ofereciam seu "conhecimento" e pseudo-retórica aos desavisados, obscurecendo os intelectos. Eram mesmo as ervas daninhas da filosofia.

Não esperássemos pois, que, estando, ao tempo das encarniçadas revoluções, das liberalidades intelectuais e das corrupções morais, não alçasse sobre nós o espírito danoso das línguas perversoras. Ele não demorou a encontrar as ciências contemplativas perenes, logo após o grande cisma reformista pudemos presenciar seus primeiros frutos mais próximos de nós, com os tais "doutos reformadores". Sim, à essa época já estava presente a percepção tão atual – e não menos intoxicante – de perfeita conciliação entre teses intelectuais contrapostas, muito bem encaixotadas em espíritos fragmentados. 

Não quero me estender nesse ponto, o que investigo aqui é puramente um fenômeno – atualíssimo – mas que certamente imperou entre a plebe doutros tempos, e por isso também possui seu valor analítico: a maneira como certos espíritos, atuais ou antigos, caem tão bucolicamente em discursos sofísticos. 

Bastam breves citações de autor X ou Y, a imposição de termos escamoteados de uma ou outra tese que o restante da platéia não faz ideia da qual é, e imperam-se as conclusões "ah, mas ele fala com ares de certeza, certamente é verdade". Ainda outros, conhecendo pouco ou menos ainda, conectam parcamente uma proposição a outra, um termo paralelo, uma breve análise... mais um pouco de encaixe, outras danças semânticas, e a mostra de conhecer superficialmente algumas escolas, voilà! Temos a mente de um gênio aplaudida aos sete cantos da... não, não estamos falando da Terra – e aqui abro um parêntese para render graças à modernidade, donde os verdadeiros doutos ficam longes do mundo paralelo digital, pena que todos jás partindo – a referência é a esse estranho e democrático universo chamado virtual (Sto. Tomás certamente consideraria jocosa a usabilidade de tal termo a esse fim), não fosse ele, o impacto e a sonoridade de tais vozes desorientadoras não passariam de um mero ruído afoito em meio a uma multidão de outras vozes igualmente mosaicares e inapreensíveis, como diria um conterrâneo, "colchas de retalhos". 

Daí que se conclui, a modernidade gerou dois filhos, de pensamento igualmente atrofiado: os especialistas, os quais nada sabem se não de sua própria redoma; e os sincretistas, que usufruem do acesso superficial a certas informações para uma montagem particular de fantoches teóricos. O último filho é particularmente mais pernicioso, pois, não satisfeito com a deformação da Verdade, ressucita ainda, de forma rude, supostos antigos pensamentos igualmente caóticos.

E não pára por aqui, esse espírito humanista faz bem seu papel... Não apenas mostra como não há nada de errado em abraçar-se o desarranjo intelectual, mas também que, o espírito valoroso da verdadeira ciência contemplativa não precisa existir, e quem sabe talvez, nunca houvesse existido. Não importa afinal a postura do argumentador, aquelas características às quais Aristóteles dizia pertencerem a um bom retórico - aquele que incita o conhecimento e a apreciação do ouvinte pela persuasão – não precisam ou nem sequer fazem menção de existirem.

Segundo Aristóteles um bom retórico deveria convencer o lógos (o intelecto do ouvinte), seu páthos (paixão - os sentidos, através do que fosse dito, pelas emoções e afetividade que suscitaria), utilizando-se da estética (a dicção, o estilo de fala, sucitando beleza em seus argumentos), pela organização do discurso (ordenação nas partes argumentadas) por último, não menos importante e desconhecido a esses "valorosos" sincretistas: a éthós - a persuasão do ouvinte com a enlevação da verdade no argumento, através essencialmente da moral, pela postura de confiabilidade do retórico, pelo comportamento ilibado que apresentasse e pelo seu histórico enquanto homem virtuoso representante de uma ciência superior.

Não, eles as desconhecem, e brincam de empilhar argumentos como crianças em parquinho, montando e desmontando peças, remodelando a verdade. Mesmo Quintiliano, Horácio, Cícero e outros grandes retóricos que defendiam avidamente os recursos estéticos e silogísticos para adornar os argumentos, jamais teriam curvado a realidade de uma verdade filosófica aos meros ornatos. Por isso mesmo dizia Quintiliano em seu Institutio Oratoria, que se pode simular a filosofia, mas não a eloquência. E não quero entrar em concepções teológicas (referentes aos danos ao espírito) e menos ainda análises psicológicas (dos danos ao intelecto) que renderiam mais páginas que no momento me é permitido dedicar.

Aqui, meu ensaio "quase" vilipêndico, torna-se um apelo. Atentem-se aos quais dão voz em seus ouvidos e deixam penetrar em suas mentes, não fiem-se nos primeiros que se confiam a si mesmos como doutos, e aqui, falo também eu como aprendiz, mas que, por uma ou outra bofetada, ou mesmo graça divina (sabe Deus), tornou-se sumamente cética a qualquer suposto entendido que reside no mesmo tempo histórico e natalício que a mim. Sei bem que, como dizia Aristóteles, a exercitação do raciocínio indutivo é mais conveniente se posta em prática com os jovens, enquanto o raciocínio dedutivo, com os mais experientes – não estamos na mesma dimensão de apreciação da verdade e cabe aos verdadeiramente honestos, assumirem tal condição.


Por fim, e acima de tudo, presumo que o melhor para se resguardar de tais figuras caricatas, além de não lhes dar a razão que sumamente já não possuem, é guiar-se essencialmente pela graça divina para iluminação do intelecto. Esta, acima de todas as outras condições, é a que efetivamente direciona o homem nos trilhos da concisão, desvia-o de mixórdias intelectuais e mostra-lhe o verdadeiro arranjo para a ordenação, guia de toda razão à Verdade.

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