Pular para o conteúdo principal

DO SARCASMO AO CIRCO, DO CIRCO À LOUCURA


Michael Cheval, "Charmer of the Attraction".
Respeitável público, o espetáculo vai começar!

Não há como negar a existência de certa fúria interna que assemelha-se a uma pura e despretensiosa descontração, a tal “sublimação” humana. O humor tem seus mistérios, afinal. Não por acaso, o teatro grego nos presentou com a manifestação de dois opostos estados humanos, a tragédia e a comédia. A primeira diz respeito ao excesso de verdade, a segunda, ao seu disfarce simbólico, o que explica o uso de máscaras nas primeiras aparições artísticas e a viagem a um estado quase inocente de consciência.

 Ah... uma troça à democracia, diziam alguns, pobres necessitados de excelência! Para mim, apenas mais uma urgência humana em escoar insatisfações de modo socialmente aceitável, ou mesmo, de rememorar aquele período no qual a ótica minimalista infantil possibilitava grandes abstrações. Dissequemos aqui, então, meus caros, o arquétipo do deus Momo, ou Μώμος (Momos), do grego “deboche”, considerado o deus do sarcasmo, da excentricidade, da loucura, “inesperadamente”, da criatividade e consequentemente, dos poetas e escritores, que ironia... (me inspire agora deus Momo, irei precisar).

Nos arquétipos dos oráculos, é possível encontrar a figura similar do "Tolo", "Louco", ou "Bobo", chamado arcano zero como primeira carta do tarô (ou última, como XXII), representa os inícios, o inesperado, a ousadia, a aventura e o conhecimento inexplorado, sempre acompanhado de um cão que lhe morde o calcanhar ou lhe arranha, como para manter-lhe longe de suas imprudências. Quem diria, sua figura assemelha-se em muito com o deus Momo.

A popular imagem de Momo com máscaras, guizos e um cetro poderia dizer mais do que o bastante sobre essa figura mítica, mas tomo a caridade de expor o que tenho em mente – o disfarce é necessário, pois se metamorfoseia, como um mago acrobata, equilibrando-se entre dois estados de espírito, os sapatos em caracol assim como as vestes multicoloridas expressam o cafona e a rebelião às convenções. Os guizos fazem jus à distração, o alívio cômico tão buscado; o cetro dá o tino imperial, afinal, tal figura assume o personagem do rei de quem faz troça, e agora, pode-se desvelar a origem natural dos bobos da corte, coroados pela história da literatura com os poemas satíricos medievais e imortalizados na figura dos palhaços de circo, aaaah o circo, é aqui que a magia acontece... literalmente.

Minha última visita a esses templos misteriosos e incompreensíveis que restaram de nossos antepassados romanos, rendeu-me certa reflexão, a triste certeza de uma antiga desconfiança – os circos estão desvanecendo.

Por trás das coloridas luzes, cartazes e de toda mercenagem (o perdão da palavra), existe ainda, estampado nessas personas circenses, a imagética do esplendor infantil, aquele tipo de humor que suscita risadas por retratar nada mais que ocasiões banais, aquilo que atiça o riso sem longas explanações teóricas, que nos imprime e incita à determinada face da realidade apenas por ela ser o que é, implicitamente, evocando milenares tradições, as quais enalteciam o homem em seu mais simples substrato, apenas por ser humano. Os arlequins expõem as crises nas relações, os segredos, as questões de violência, os riscos, o lidar com o inesperado, a ridicularização, a vergonha e por que não dizer, a mais profunda indiferença aos rigores sociais?

Tais personagens, sobretudo palhaços, não temem o ridículo, assumem a irreverência explorando as mazelas, os encantos, as virtudes e os vícios para satisfazerem, através do cômico e do sarcasmo, a carestia humana de brincar, desfigurando hierarquias, desfazendo-se dos bons modos. O que fora dos picadeiros é vexação, ali é estrelato, o medo de exposição é inexistente e a comicidade do esdrúxulo dá lugar a uma fina dança com a loucura entre arranjos e afiados improvisos, nada de normas aqui, fora às amarras! Essa loucura, que em verdade se traduz em um primitivo estado de consciência no qual a inspiração é autêntica e fluida, nos possibilita conectarmo-nos com um poeta interior quase anárquico que ordena em sonetos o amplo espectro do caos, algo retratado por Brant em "A Nau dos Insensatos", mas sou definitivamente mais simpática à loucura do que ele.

O circo conserva essa faceta social já há muito perdida que busca calamitosamente agarrar-se ao universo digital moderno de “ciber-humoristas” – a necessidade de expurgar desassossegos diários, transmutando-os em uma natureza infante e burlesca, ao passo que entretém e abre ligação com aquele pequeno indivíduo interior a que chamam por criança. Entre toda a necessidade de rigidez e seriedade exigidos cotidianamente nessa tal “maturidade”, aqui, encontra-se uma brecha sisuda que não requer uma só gota de álcool para excitar o riso.

É pesaroso que tais espaços tenham perdido seus holofotes e que precisem ampliar cada vez mais seu repertório de “inovações” para que suscitem algum público. Esse fato denota que o pensamento coletivo humano tem se distanciado cada vez mais daquele cientista indutivo que todos somos quando crianças. Quanto maior a carência de conexão com os simples acontecimentos cotidianos, maior a sensação de vazio existencial, daí a necessidade de entorpecimento oferecido por outras fontes fugazes e não tão singelas, como vídeos com menos de 30 segundos e stand-ups enfadonhos e monotemáticos.

A ironia é que espaços como os circos possibilitem o desnudamento dos disfarces, o fascínio no olhar, o encantamento em cada mínima aparição, em jogos de luzes, cores e música. De forma pitoresca e quase juvenil, retiram-se as máscaras e, como em um ritual coletivo, cultua-se o gozo aos mais absurdos eventos desse sarcástico conglomerado de células, angústias, êxitos, dúvidas e transciência a que chamam por vida humana. E que fechem-se as cortinas, o show terminou!     

Comentários

Destaques

Dança dos Clássicos - Poema

Patenteiam-se os Autores; À baila caminha Dante rumo à sua Beatriz; Corre hades, sobeja purgatório, enleva-se  ante ao paraíso; Chorosa Ofélia que aflita convoca seu amado, Ofuscado em assombros por seus rancorosos fantasmas; Nada lhe resta se não submergir-se floreada em desassossego ante às águas; Vem também ambicioso Macbeth, precipitado brada a vitória frente a seu exército;  O destino selado, fatal pacto; De sua Lady fez-se a loucura; no amor e na honra, nem mesmo o poder vence a culpa; Convocam Otelo, que de ódio  contaminou-se-lhe o amor, E de fresco licor, uma gota de ciúme,  envenenando-lhe a alma, transborda frasco de horror; Que estranha a dança de paixão e pavor,  Na existência humana, Em suas quimeras coordenadas, Não resta sombra de dúvidas, Coreografam-se com o terror. Paraíso Perdido, a expulsão foi-nos certa, Consciência do todo, paga com inocência, E do fogo roubado Prometeu aturgiu; E contrapondo a desordem,  O Ato Puro ordeno...

Quando as Leis Renegam a Moral

Uma das piores heranças que o século XIX pôde ter legado à posteridade, foi o equívoco de tomar conceito por realidade e revolução por progresso. Tais concepções, quando unidas, no interior de mentes vís, fundem a explosiva equação: revolução de conceito é igual à progresso de realidade - nisto situa-se toda a ruína moderna. A intentiva de modificar a realidade ao bel prazer, que era antes apenas um sonho abobado em momentos de puro ócio, tornou-se, não apenas uma possibilidade, como regra, em diversos Estados, autarquias políticas e des- organizações governamentais.  O poder financeiro aliado à aspirações satânicas encontrou terreno fértil em meio ao cenário de maquetes sociais e experimentações genocidas. Protegidos em suas cúpulas de zinco, autoridades assinam e reformulam leis, como o novelista que escreve um conto por corrigir, sempre pronto a editar, grafar e reordenar o conteúdo da história. À espreita, populações crentes em terem participação em suas decisões, relés platéi...

Crônica aos Consertadores de Panela

   De forma costumeira, acordei, organizei algumas coisas e fui fazer um chá. Não demorei a perceber que uma de minhas chaleiras tinha o cabo frouxo e corri logo a trocar pela que estava intacta. Logo me ocorreu um pensamento "preciso consertar essa panela", mas não demorei muito a desanimar, "onde eu poderia? Ninguém mais faz isso hoje em dia". Isso, o quê? Poderia alguém indagar-se. Trabalhar consertando panelas? Não - consertar algo. Em geral, as pessoas só compram outra. Noutra época, longe de toda "facilidade" e "versatilidade" do mundo moderno, que muitas vezes, mais se poderia chamar de "descartabilidade" (em um uso bastante alongado da palavra para não usar termos como "fútil" e "superficial"), era comum que houvessem profissionais específicos para manterem com as pessoas, ainda por bons longos anos, os mesmos objetos que sempre tiveram, os quais, em geral, também eram fabricados já predispostos a esse fim. R...