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A Cidade das Damas - fragmento

  Um dia, estava eu, como de hábito, com a mesma disciplina que rege minha vida, recolhida em meu gabinete de leitura, cercada de vários volumes, tratando dos mais diversos assuntos. Com a mente cansada por ter passado um bom tempo estudando sentenças complexas de tantos autores, levantei a vista do texto, decidindo deixar, por um momento, assuntos mais sutis para deleitar-me com a leitura de alguma poesia. E, com esse intuito, procurando a volta algum livrete, caiu entre minhas mãos um certo opúsculo que não me pertencia, mas que alguém havia deixado ali com outros volumes por empréstimo. Abri-o, então, e observei no título que se tratava de Mateolo. Pus-me, então, a rir, pois ainda não o havia lido, mas sabia que, entre outros livros, esse tinha a reputação de falar bem das mulheres! Pensei então que, para me divertir um pouco deveria percorrê-lo. Mas, a leitura mal havia começado, minha mãe chamou-me à mesa. Chegara a hora do jantar. Comprometi-me, assim, a retornar no dia segui...

A Modernidade Dando Voz aos Sofistas

O fenômeno da sofística não é recente, data de alguns séculos antes de Cristo (500-400 a. C. apx.), para ser mais exata. Os sofistas, inicialmente considerados sábios e posteriormente rechaçados, eram os quais Aristóteles considerava capciosos e segundo o qual eram o pior tipo de argumentador, posto que, além de não estarem preocupados com a superior finalidade de um argumento – encontrar a Verdade – valiam-se de tal para chafurdarem-se em vaidade e contaminarem a formação linear dos espíritos mais sugestivos, apregoando argumentos vazios e utilizando-se de semântica prolixa com ares de ornamento ao seu bel prazer, embrulhavam-se em imagem de verdade; e, como maçãs podres pintadas de açúcar, ofereciam seu "conhecimento" e pseudo-retórica aos desavisados, obscurecendo os intelectos. Eram mesmo as ervas daninhas da filosofia. Não esperássemos pois, que, estando, ao tempo das encarniçadas revoluções, das liberalidades intelectuais e das corrupções morais, não alçasse sobre nós o...

Dos Pretestos Inventados

    Tal fera indômita e incorrigível é a mente que transborda a ânsia pelo infinito . Inicio esse escrito pelo fim, justificando-me perante a invisível platéia diante de mim – buscava unicamente um pretesto. Saudações a todos! O medo antigo retornou!  Não quero assustá-los, por falta de melhores modos de enfrentar o vício, defrontá-lo parece-me o mais cabível. Afinal, Aristóteles não os colocaria como extremidades de um mesmo ângulo donde o meio unicamente constrói as virtudes – o árduo equilíbrio, se não o pudéssemos domesticar. Peço licença aos conterrâneos, serei aqui mais literata que filósofa; mais poetisa que teóloga, e entre dois ângulos, uma lírica de tavernas. Mas onde estávamos? Ah! O medo. Sim, paixão que desprezo (perdoe-me Sto. Tomás) e quisera eu certo dia excluí-la de meu vocabulário. Impossível missão, visto que o sucesso de sua aniliquilação provaria justamente sua existência... Mas deixemos de lado as divagações caducas, não mais delongarei. Não é novida...

Dança dos Clássicos - Poema

Patenteiam-se os Autores; À baila caminha Dante rumo à sua Beatriz; Corre hades, sobeja purgatório, enleva-se  ante ao paraíso; Chorosa Ofélia que aflita convoca seu amado, Ofuscado em assombros por seus rancorosos fantasmas; Nada lhe resta se não submergir-se floreada em desassossego ante às águas; Vem também ambicioso Macbeth, precipitado brada a vitória frente a seu exército;  O destino selado, fatal pacto; De sua Lady fez-se a loucura; no amor e na honra, nem mesmo o poder vence a culpa; Convocam Otelo, que de ódio  contaminou-se-lhe o amor, E de fresco licor, uma gota de ciúme,  envenenando-lhe a alma, transborda frasco de horror; Que estranha a dança de paixão e pavor,  Na existência humana, Em suas quimeras coordenadas, Não resta sombra de dúvidas, Coreografam-se com o terror. Paraíso Perdido, a expulsão foi-nos certa, Consciência do todo, paga com inocência, E do fogo roubado Prometeu aturgiu; E contrapondo a desordem,  O Ato Puro ordeno...

Tributo aos Póstumos

Sob a ótica daqueles que perderam, venho aqui prestar minhas condolências. Não se pensa muito sobre ela. Os que a evitam, padecem neuróticos, os que a amam, padecem suicidas.  Não parece haver direção ideal, apenas, talvez, aquela que escolhem os conformados - estamos aqui agora, e depois, já não estaremos mais. "É a única certeza", dizem alguns, afirmação de dupla proporção, por um lado, afagos de consolo, por outro, temida aflição.   A descrença inicial, a dor, o niilismo que se apoderam do espírito, parecem integrar o átimo da perda. Toda desolação manifesta, revive o primitivo sentimento da queda inicial, o desespero, a impotência; é o momento no qual nos damos conta de nossa insignificância diante da morte, da fugacidade da vida terrena. Somos contrariamente arrastados a um estado reflexivo de inércia volitiva. Em nenhum outro momento haverá maior necessidade de atribuir significados e sentidos como neste, que, de forma mordaz, é o que menos concederá tais respostas....

Iustitia Roubada - A Perversão da Justiça

Entre todas as virtudes cardeais, a virtude da iustitia - ou justiça - é a digna de maior atenção; não puramente pela extensão de processos a que pode ser aplicada, mas sobretudo, pela perversão ou quase extinção de seu conceito original e perpétuo. A virtude da iustitia, em poucas palavras, diz respeito à virtude do "dever para com o outro", e tem sua fonte primordial na ação da vontade de seu agente. Nas palavras do Angélico "O sujeito da justiça é a vontade, que é o apetite racional (...)"¹. "O objeto ou matéria da justiça são os atos pelos quais o homem tem relação, não apenas consigo mesmo, mas com outrem"². Nesse aspecto, a justiça move-se pelas dívidas às quais somos vinculados. À medida que uma necessidade se manifesta, somos chamados à restitutio (restituição) perante esse ato para cumprir a justiça, seja em situações de agravo, onde alguém é lesado, material ou fisicamente, seja para encontrar novamente aquilo que foi perdido. Ela é então, a cons...

Amnésia de Massa - ou, porque tantos Enzos e Valentinas

Finalizada a primeira parte do livro "A Rebelião das Massas", de Ortega y Gasset, um influxo de reflexões tomou-me a mente.  Em brevíssimo resumo sobre os ditames da obra, explico que, Ortega traça considerações acerca do "novo homem" de sua época, ao qual imprime o sugestivo nome "homem-massa". Esse homem-massa, que acredita ter direitos onipontes, é também o mesmo que abdica-se diante de suas escolhas individuais, deixando-as a cargo de um poder estatal e, mimado por seu tempo, julga serem todos os artífices tecnológicos de que dispõe, naturais e perenes, como qualquer outro ente verdadeiramente natural, apagando toda a história civilizacional de sacrifício até ali. Ortega não errou, pelo contrário, adiantou muito do que viria a ser, a era moderna, algo que poderia facilmente chamar-se, o "tempo da aminésia coletiva". À época de Ortega (século XIX), o homem ainda fazia certo esforço para esquecer-se de suas obrigações com o tempo - as guerras, ...